Sejam muitíssimo bem-vindos leitores, amigos, pacientes e colegas.
A postagem de estreia desse blog totalmente dedicado à acupuntura e Medicina Tradicional Chinesa servirá de ponto inicial para que nos habituemos a utilizar este como espaço de reflexão crítica do que a mídia de mercado nos impõe como verdade.
Vamos ao ponto. A Rede Globo de Televisão estreou no Fantástico de 29/08/2010 a série “É bom pra quê?”. Segundo o médico Dráuzio Varella o intuito da série é “mostrar que esses fitoterápicos têm de ser estudados”. Para aqueles que não assistiram a série, recomendo que assistam em: http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL1616472-15605,00-CHAS+E+PLANTAS+PARA+TRATAR+DOENCAS+PODEM+SER+PERIGOSOS.html.
Tentarei buscar paralelos entre o pensamento ocidental e o desenvolvimento da medicina tradicional chinesa, pontuando algumas passagens desastrosas da criminosa reportagem.
Logo de início são mostrados alguns depoimentos de transeuntes de países que, estranhamente, com exceção do Japão, não possuem verdadeiramente grande tradição em fitoterápicos. Não é de se estranhar que ao se falar de fitoterápicos não se cite ao menos as culturas Chinesa e Indiana? Como falar sobre fitoterápicos de maneira responsável sem apresentar as duas grandes civilizações que tem por fundamentação de seu sistema médico uma sólida base fitoterápica, como a Medicina Tradicional Chinesa e a Medicina Ayurvédica? Começamos a entender a tendenciosidade da matéria na sequência.
A cena é cortada para uma médica fitoterapeuta do HMA (Hospital de Medicina Alternativa de Goiânia) que estaria receitando açafrão para o câncer de uma paciente. A seguir, Dráuzio pergunta a Newton Lemos (Assessor da OMS) se ele como médico se sentiria a vontade para recomendar fitoterapia para doenças um pouco mais graves, mais sérias. E Newton Lemos crava: “não, eles não são indicados”.
Não vou me dar ao trabalho de comentar a arquitetura da sequência mostrada, afinal, qualquer pessoa com dois neurônios e o mínimo de sagacidade é capaz de notar a tendenciosidade. Mas o que incomoda de verdade é o modo como tudo é feito. Não notamos nenhuma preocupação em se mostrar imparcial ou criterioso. Pelo contrário, parece haver uma necessidade de explicitar a parcialidade e posição, o que explica o fato do apresentador perguntar para alguém que não tem o devido conhecimento técnico se ele se sentiria a vontade para receitar seja o que for. Afinal, um médico ortopedista se sentiria a vontade para receitar um antidepressivo? Ou ainda, um reumatologista se sentiria a vontade para receitar um anticonvulsivante? Não! Pelo menos esperamos que não, afinal ele não possui treinamento e muito menos conhecimento específico para fazê-lo. Por que afinal um médico de qualquer outra formação se sentiria a vontade para receitar um fitoterápico seja para o que for?
Agora, vamos pensar um pouco. Por que o Dráuzio Varella não colocou em sua série alguém realmente reconhecido na área para falar sobre os fitoterápicos, como por exemplo, o renomado pesquisador professor Titular da Universidade de São Paulo, Prof. Dr. Sylvio Panizza, referência mundial em plantas medicinais, que na década de 90 ficou famoso pela série “Cheiro do Mato” na TV Bandeirantes? Não teria ele propriedade muito maior para abordar o tema?
A ideia aqui não é pontuar todos os “erros” e dissimulações feitas pela reportagem, indo desde falas infelizes do representante do CFM ou da OMS até os graves erros técnicos apresentados, apenas alertar para o impacto que matérias como essa têm no coletivo popular. Cria-se uma linha de raciocínio que leva o telespectador a crer que a fitoterapia baseia-se na ignorância e ingenuidade de seus usuários e em uma espécie de charlatanismo dos que a recomendam. Desnecessário mencionar que isto não é verdade, muito pelo contrário. Por exemplo, diversos estudos nos mais importantes centros de pesquisa do mundo apontam para a eficácia das plantas medicinais testadas e a especialização na área é reconhecida pela maioria dos conselhos federais das mais variadas profissões da saúde.
Não posso deixar de comentar a descarada tentativa de depreciação em relação à Medicina Tradicional Chinesa. Em certo momento o cidadão afirma: “A milenar medicina chinesa era tão precária que, até o início do século passado, os chineses viviam, em média, pouco mais de 30 anos”. Logo após, Dráuzio atribui ao advento da utilização da penicilina como o primeiro antibiótico, na metade do século passado, como fator responsável pela ampliação na expectativa média de vida mundial. Agora, reparem como está deliberadamente fora de contexto a questão. A própria medicina ocidental não provia melhores condições que a medicina chinesa e não proporcionava, aos ocidentais, expectativa de vida mais elevada. Ou seja, qual a intenção de insinuar que a precariedade da medicina chinesa era a responsável pela baixa expectativa de vida dos chineses? Percebam como é fácil desvirtuar o que é falado, ainda que não sejam falsos os dados apresentados. Além disso, desconsidera-se completamente a evolução da noção de saneamento básico, condições de trabalho, higiene pessoal e etc. tão importantes na elevação da idade média da expectativa de vida mundial, sem mencionar a diminuição no número de conflitos armados, grandes guerras e revoluções que vitimavam frequentemente milhões de pessoas ao redor do mundo.
Toda essa noção absurdamente errada do que é a Medicina Oriental é fruto da falta de conhecimento básico da história da metodologia que empregamos para desenvolver a ciência ocidental e é daí que advém o preconceito em relação ao diferente. A diferenciação é relativamente básica, mas pouco entendida. O desenvolvimento do conhecimento ocidental não obedece à mesma lógica oriental. Esse entendimento é de suma importância para que se compreendam as diferentes abordagens dos sistemas médicos das culturas orientais e ocidentais. Explico, A Medicina Tradicional Chinesa tem sido considerada uma ciência médica empírica, podendo ser explicada de modos variados. A Medicina Ocidental é chamada de medicina experimental, já que é baseada em experiência, enquanto a Medicina Tradicional Chinesa é vista como medicina empírica porque é formada nas bases de experiência prática, mas o ponto de vista de que a Medicina Chinesa é apenas uma tecnologia médica baseada no conhecimento perceptivo sem um sistema teórico não é aceitável. A Medicina Ocidental hipocrática foi profundamente alterada a partir do Renascimento, com a ascensão de algumas ciências naturais. Mas verdadeiramente, o sistema teórico da medicina moderna só começou a tomar formato com o desenvolvimento da ciência moderna.
A Medicina Chinesa é completamente diferente. Seu sistema teórico não sofreu profundas alterações desde sua formação no Huang Di Nei Jing. Não por inexistir a evolução de seu pensamento e prática ou inquietação de suas diversas escolas. A questão é outra.
No campo do pensamento e cultura, o materialismo e a dialética simples da Grécia antiga sofreram profundas alterações pelo idealismo e pela metafísica. Já a dialética materialista simples da Medicina Tradicional Chinesa suportou os ataques idealistas e sobreviveu a esses três mil anos de evolução. Nota-se, portanto, como chave primordial da questão o fato da Medicina Tradicional Chinesa nunca ter deixado de servir às massas desde seu surgimento. A prática terapêutica envolve a vida e a morte de pessoas, desse modo nenhum exagero ou irrealidade é permissível. O conhecimento vem da prática, e o sistema teórico e os métodos de tratamento da Medicina Tradicional Chinesa tornam-se ricos na prática com a ajuda dos especialistas de períodos variados. A Medicina Tradicional Chinesa origina-se na dialética simples, mas, com o desenvolvimento da sociedade, a tem ultrapassado. Portanto, essa medicina possui seu próprio estilo de tratamento: observar de modo intuitivo, porém, pensar de forma científica, e visar a doença como um todo, mas analisando-a concretamente.
Não podemos negar em nenhum momento, de nenhuma forma, o avanço significativo oriundo da inovação tecnológica da ciência moderna aplicada a Medicina Ocidental, afinal, fazê-lo seria de igual ignorância comparativamente ao que é feito pelo corporativismo ignorante de parcela da classe biomédica ocidental em relação à tradição oriental. Porém, tudo tem dois lados. Ao passo que compartimentaliza-se o conhecimento, caímos em nossa própria armadilha. Figurativamente, temos a capacidade de enxergar uma árvore e cada molécula que a compõe, mas somos incapazes de localizar essa árvore em uma floresta. A ciência dos últimos 50 anos tem visto as árvores, mas não as florestas. Diversas disciplinas marginais tentam unificar o pensamento e empregar, como de princípio, o princípio materialista dialético como princípio-guia da ciência moderna, necessitando de cientistas que finalmente exerçam a “negação da negação”. Para citar como o avanço científico real se encontra nas teorias tradicionais chinesas, cito o quanto a cibernética e a informática têm se aproximado, respectivamente, da teoria do Wuxing, chamando-a de sistemática ordinal simples e da teoria do jingluo, comparando ao sistema de “informação” usado atualmente, entendendo como pontos de entrada e saída (pontos de acupuntura), carregadores (canais e colaterais) servindo como sistema de controle do corpo usando essa informação (qi e sangue).
Certamente os assuntos abordados são extremamente polêmicos e complexos. O estudo das culturas sociais deve ser norteado pelo respeito, mas, acima de tudo, pela responsabilidade de entender e se inserir no contexto destas, entendendo seu desenvolvimento e analisando por sua visão o que é empregado e proposto. Só assim podemos de alguma maneira então problematizar suas falhas e avanços.
Nada disso foi feito pelo Sr. Dráuzio Varella e equipe, não houve preocupação alguma em entender o que estava apresentado. Mais uma vez, a população é, descaradamente, utilizada como massa de manobra para os poderosos lobbies. Mais uma vez, a fatal força econômica das farmacêuticas e máfias da saúde impregna em nossa sociedade, usando-se de um cientificismo porco e barato, a ideia de que, em breve, teremos a solução para todos os problemas.
Basta que você fique quietinho, obedeça ao que é mandado e compre os produtos indicados que você estará seguro e saudável.
Essa série é uma excrecência, uma manipulação mal feita e criminosa. Portanto, cuidado com o que você ouve por aí, a sua saúde não é a prioridade deles!
Ótimo texto, Tatão.
ResponderExcluirParabéns pelo pensamento crítico e pela excelente base teórica exposta para discussão.
Keep on fighting!
Grande abraço, parceiro!
Parabéns André!
ResponderExcluirtexto bem elaborado e autêntico, não poderia ser diferente vindo de você.
adorei a crítica!
beijos
Gostei do texto André!
ResponderExcluirMuito bom.
bjo
Oi Tato,
ResponderExcluirFico feliz e aliviada de ver cada vez mais protestos aparecendo contra a tremenda irresponsabilidade e deserviço feito pelo "Dr.Celebridade" (Varella). Julgando-se autoridade em saúde pública, vendeu-se para industria farmacêutica em deterimento da sáude da população, usando seu prestígio conseguido inclusive a partir de conhecimentos advindos das Medicinas Tradicionais, para ridicularizar práticas sérias e eficientes.
Na mesma reportagem o Dr. e sua equipe ainda insinuam, ou melhor dizem sem vergonha, que as sociedades do terceiro mundo utilizam-se da fitoterapia e recursos naturais exclusivamente por não terem dinheiro e acesso aos medicamentos alopáticos, dizem enfim que usam fitoterapia só porque são pobres, chamando-nos de burros, induzindo a população pensar que estão sendo enganados e mal assitidos, não por não terem o mínimo de infra-estrutura ou saneamento básico, mas por que usam ervas para se curar.
Por fim, o Ilustre Dr. critica o bem sucedido programa desenvolvido pelo Estado do Ceará.
Enfim, espero que nestas eleições ponhamos a mão na consciência e usemos o voto para de fato construir algo de bom...
Bjs e Parabéns!